sábado, 6 de setembro de 2014

.protagonista

(Capítulo perdido de alguma coisa que eu tava escrevendo...)

E era assim. Nós, vestíamos luvas, coturnos e blusas grandes, e o céu vestia-se de estrelas absurdamente luminosas. Em muitos dos fins de semana dos meus quatorze anos ela estava comigo apontando o céu, me indicando algumas constelações. Esse bairro afastado, com sua estrada de terra batida, que ainda lutava pela conquista da iluminação artificial para as ruas, era nosso refúgio. O céu, nessa época, ostentava constelações.

Subindo pela estrada Juca de Carvalho, próximo onde hoje tem uma caixa d’água que abastece toda região, está o morro mais alto da cidade. Era lá. Minha mãe foi uma fanática por estrelas e me arrastou para esse vício. Era mágico. Nunca aprendemos a olhar por um telescópio, nossa experiência sempre foi a olho nu. Mas sei até hoje onde está cada "desenho" em qualquer época do ano e esse é meu conhecimento amador de astronomia. O céu foi onde eu tive o primeiro interesse por aquilo que é intangível, está distante e infinitamente além de nós. Naquele morro, o céu estrelado era o meu deserto e, passo a passo, era desbravado.

Engraçado pensar nisso. Eu escrevia poemas. Alguns muito bobinhos sobre essas minhas estrelas. Sobre a efemeridade de seu brilho eterno que, depois de todo amanhecer, precisamos aguardar seu retorno. Em alguns casos, esse tempo era penoso, pois afastava essa maravilha de mim. Em outros, esse afastamento era um signo da eterna esperança que se renova. Variava muito, acompanhando o estado de espírito pré-adolescente.

Por conta dessa afinidade, e do meu interesse por tudo que era místico, aprendi sobre astronomia e horóscopo, fiz alguns trabalhos sobre esses temas. O que mais me surpreendeu, enquanto estudante, foi como a linguagem era usada para manipular o leitor. A maior parte dos horóscopos de jornal e sites tinham como principal recurso os motivadores, como “faça”, “busque” e “tente”. E o que tentar, buscar ou fazer? Algo que você está postergando ou tentando criar coragem, sem nunca ser específico. Um gráfico mais simples sobre os horóscopos, tendo em 70% os motivadores como tema, teria outros 20% referentes ao que eu chamava de "hora de mudar": livre-se do que te prende, mude sua atitude, observe novas oportunidades... Outros 10% ficaria com sugestões dignas de biscoito da sorte ou conselhos de avó/mãe: "seu dia não está para consumo, reflita seus gastos", "cuidado ao andar por caminhos desconhecidos". Nada produtivo. E não foi grande minha surpresa quando descobri que, em veículos de grande circulação, o horóscopo era terceirizado para empresas especializadas em textos, com a maioria de funcionários formados em letras, como eu viria a ser!

Foi então que decidi estudar, como passatempo, as origens da cultura do horóscopo e da astrologia. Passei meses mergulhada em bibliotecas, sebos e aulas de grupos de estudos, nem sempre ligados ao tema em si, mas à mitologia e cultura que influenciaram, no ocidente, a formação dessas “ciências”. Principalmente filosofia. Nesses caminhos, voltando certa tarde da Nova Acrópole, já com meus 16 anos, me deparei com uma porta e uma plaquinha, daquelas de madeira rústica, feita a mão mesmo, escrita “Cartomante”. Em um impulso, entrei.

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