segunda-feira, 19 de maio de 2014

"cartas" ou "das noites difíceis"

Contra tudo que prometi, abro o envelope escondido na última gaveta. Contra minha vontade de não relembrar, espalho cartas e cartas pela cama. Querer esquecer sempre será revisitar para lembrar. Desta carta chovem pedras preciosas, gemas de uma coleção que fizemos, um álbum de figurinhas trocadas: você precisava das minhas e eu das suas.

Estou com dores no corpo. Não ligo. Não encontro posição para colocar meu pescoço, travado. Não ligo. Releio cartas, revejo ingressos de cinema amassados. Estou entediado, estou machucado. Vomitei de dor, disfarcei. Não pude sair antes do trabalho. Agora repouso lendo cartas. Repouso, mas estou em rebuliço. Não deveria estar com essas cartas, não queria relembrar. Me disseram que sempre quis, pois guardo as cartas. Guardo todas as cartas, não só essas, mas é só essas que visito. 

São tantas páginas, mas não me distraio em nenhuma. Conheço todas. Não lembro o que dizem, mas sei o que significam. Estou inoperante. Ninguém falou comigo hoje, ninguém me escreveu hoje. Liguei para duas pessoas, mas as conversas foram curtas. Ainda estou nauseado. A dor no pescoço reflete no estômago, vomito outra vez. Tento por para fora a dor de revisitar as cartas. Tento não vacilar. Não admitir que queria atenção enquanto passo mal. Tento não admitir que nas cartas não tenho a atenção que preciso, assim como nunca tive.

Estou com febre. Estou delirando entre sonhos, dores e ânsias. Não estou dormindo, são três da madrugada e eu não durmo, eu reviro. Não sei o que fiz das cartas. Não respondi mensagens no celular. Estou com meus medos na cama, estou sozinho em mim. Ligo a televisão, mas o barulho do mundo me dá mais náusea. Desligo. Não durmo e sonho outra vez. Algo me agarra o pescoço e o quebra. Sinto mais dor quando levanto de susto que quando quebraram meu pescoço. 

Está sendo uma noite difícil.

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