quinta-feira, 13 de março de 2014

Quadros abstratos - 2*

Então finalmente consegui tocar com minhas mãos e braços a superfície dela. Era plana. Descobri que todas as fantasias, que os delírios que tive sobre ela ter me enganado todo esse tempo, ter me afogado e magoado com planos mirabolantes e diabólicos, nunca existiram. Ela é plana.

 Ao meu toque, seu plano escorregou. Em ondas reflexivas,  ela se afastou e se reuniu de novo, formando  sua superfície esquiva e uniforme outra vez. Depois disso, nunca consegui tocá-la. Agora estou longe. De longe tento observá-la. Fixo o olhar e não foco em nada.

Ali admiro um quadro abstrato. Ela existe ali somente dentro de um conceito. Plana, ela só pode existir se sabemos que está ali. Uniforme, não podemos tomar olhar e compreender. Incompreensível, não é fácil de gostar. Mas aí admiro, admiro sempre e profundamente, sem poder aprofundar no que é retilíneo. Admiro e, como seria em um quadro abstrato de concepção única de seu criador, gosto. Justamente pois o que é abstrato só pode existir por completo na imaginação. E eu achei bom.


* - O primeiro dos "Quadros Abstratos" sou eu, de acordo com uma amiga mui amada.

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