segunda-feira, 17 de março de 2014

outro vermelho que escorre entre dedos abertos

Entre todas as coisas eu não conseguia me sentir real. Especialmente diante daquela rosa radiante, tão distante, longe do meu jardim. E que era uma rosa vermelha, pois toda rosa de beleza literária tende ao vermelho. Lábios vermelhos.

Cercando tudo, um espinhal. "Flor? Eu estou mais pra espinho" dizia e ria, ríamos. Todo espinho tem sua rosa. E essa rosa, desse espinho, era a coisa mais real que já vi. Eu dormi no calor das pétalas desabrochadas dessa rosa: me senti real, forte, firme. Acordei, dias depois, enredado em uma longa teia de espinhos. Não compreendi, não havia mais nada.

Tal flor estava tão longínqua e, de tão distante, parecia que era eu que não estava mais ali. Ela estava real em meus olhos. Eu tinha, no lugar dos meus dedos, o toque dela. Dela eu tinha certeza. Poderosa, inefável, intangível. De mim, sem ela, nada poderia ser certo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário