segunda-feira, 10 de março de 2014

Cruzadas

Atravesso, todos os dias, uma ponte para ir ao trabalho. Sob essa ponte tem um córrego, canalizado, feio, reto e duro. Sobre essa ponte passam todos os dias pessoas indo para o trabalho e escola. Sob essa ponte moram algo-restante-de-pessoas, infinitas, sem trabalho, inertes frente ao córrego sujo e inflexível.

Passo por essa ponte todos os dias e, todos os dias, encontro com a mesma mulher. Deve ter seus 45 anos. Talvez tenha 50, mas são todos muito bem conservados. Cabelo visivelmente tingido e bem cuidado, com suas mechas caindo nos ombros, sempre protegida pela jaqueta de couro.

Essa moça abre um meio sorriso, escondida sob os óculos escuros (seus olhos devem sorrir por inteiro), quando me vê. Eu sorrio de volta. Cruzamos caminhos todos os dias. Isso me faz chegar mais animado no serviço. Entretanto, nunca nos falamos e nunca vamos nos falar.

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