domingo, 23 de fevereiro de 2014

Travessia

Também foi bom o gosto do café daquele lugar. Ficará gravado na memória e no paladar aquele gostinho gelado do sorvete com conhaque. E esse é outro começo. Vou lembrar todas as palavras que trocamos, cada detalhe do rosto, do sorriso, da risada escandalosa, do meu olhar tentando manter a calma e conter um súbito e íntimo arrepio de alegria.

Meia-noite, uma hora. Não tinha mais hora, não importava. Ela deu um singelo oi e eu , que estava trancado em uma casinha de cartas, caí, sem ver que a hora era a que não importava. Levou um tempo, mas atravessei a ponte de vidro. Então sonhei outra vez.

Naquela noite pisei em um chão sem fundo. Senti os pés formigarem ao não cair, caindo no abismo. Atravessei a ponte de vidro. Não estava pisando em nada tangível, mas não caminhei cauteloso, cruzei a distância com passos largos. Atravessei a ponte de vidro. Toquei com as mãos o chão frio da ponte de vidro.Tornou-se outra vez o firme concreto, o firmamento. Era a mesma das outras vezes. Atravessei a ponte de vidro tornada concreto, firme e certa.


O que era certo voltou ao seu lugar e, com isso, deu errado.

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