domingo, 9 de fevereiro de 2014

Ela gostava de rodar o bambolê na infância. Competia com as coleguinhas quem ficava por mais tempo, quem tinha o giro mais bonito. "é ela!", "não, sou eu!", "ela gira feio, olha as pernas finas!","hahaha, e a Cris? o bambolê para na bunda dela", "hahahaha"...

Hoje ela quer voltar a praticar. Não tem bambolê, perdeu a ginga. Adia a diversão, o gosto doce da infância mordiscando a boca. Tem algum medo de não saber girar mais. Na garganta roda um receio. Ser vista errando uma brincadeira infantil? Medo de brincar.

Enfim compra. É roxo. Meio azulado. Rosa não, rosa seria infantil demais, voltar demais a infância. Ela até pensou em pegar o rosa, cintilante, cor do vestido da primeira barbie, da primeira casa de bonecas. Mas não. Quem olhasse iria achar esquisito uma menina crescida, de tatuagens, vestida de preto e com bambolê rosa.

No parque está a garota de preto com o bambolê "roxo-sonho-de-ser-rosa". É um parque, ele é imenso. Talvez todos a notem. Talvez só um transeunte distraído repare no gracejo da cintura tímida. Respira fundo, olha através do aro, mede e implica com todos os lados. O prende firme com uma mão, alisa o objeto, adia.

Finalmente eles estão girando. Ela e o bambolê. Cintura é o gingado, o aro, malemolente, é a dança. Não foi assim, exatamente. Começou duro, travado. Ela olhava ao redor, derrubava o brinquedo e buscava se alguém tinha visto sua infância distante. Depois, foca. Abstrai os olhares. Fixa no infinito do bambolê que gira. Consegue. Conquista.

Finalmente eles estão girando. Ela e o bambolê. Ela não nota que a estão observando. A criança puxa a saia da mãe e aponta. Dois rapazes disfarçam o rabo de olho. Um funcionário repara no gracejo da tímida cintura. Ela está com os olhos fechados. Não nota. Gira ao som dos risos da sua brincadeira de infância. Não nota. Fechou um círculo em si.

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