terça-feira, 28 de janeiro de 2014

P.

Faz cinco meses. Eu ainda amo. Amo de pensar nela ao acordar, ao dormir. Ela está em outra cidade. Provavelmente pensando em mim. Não sei porque terminamos. Estava perfeito. Ela comigo quando eu queria. Ela a me esperar. Ela ainda me espera. Ela está lá, provavelmente esperando que eu chegue e a tome nos meus braços, como ninguém mais fará, já que ela é minha. Mesmo longe. Mesmo nesse longe difuso de uma cidade distante, enevoado.

Mas o que é isso? Uma imagem. É ela. Ela ainda está ali, sorrindo como sempre sorriu pra mim. Ela está diferente, turva. Com quatro braços? Não, é um abraço. Um abraço como eu sempre dei. Sou eu, com ela nos braços. Não. Não sou eu. QUEM É? Quem está com ela nos braços? Não conheço. Quem será? Irmão? Amigo? Não, Não é. Não com esse abraço, não com essa cumplicidade. Meu celular. Cadê meu celular? Porque está turva a imagem? Na imagem só pode ser eu. Ninguém pode ter nos braços esse sorriso que me ama. Tenho certeza que me ama. Eu também amo.

Alô? ALÔ? Te amo, tá? Te amo. Te amo. Sim. Ela disse tá. Ela desligou. Ela disse tá, mas o que está? Ela me ama? ELA ME AMA! Aquele sorriso me ama e aqueles braços só podem ser os meus. A imagem está mais turva.

Ela está em outra cidade. Naquela imagem turva não sou eu que a abraça. Algum monstro está profanando meu amor. Algum monstro. Eu preciso alertá-la. Alô? Eu te amo, tá? Quero estar com você. Como assim acabou? Não! Aquele monstro está te enganando, você me ama. Eu estou turvo. Não consigo me enxergar. O monstro, o inimigo, ele está me apagando. Ela me ama, não pode me esquecer, estar com outro, dar aquele sorriso para outro. Para um monstro turvo.

Eu o vejo. Ele é o inimigo. Tento alertá-la. Alô? Ela me ouve. Conversa. Diz que ele não é um monstro, que ele é gentil. Ela não entende. Ele não é gentil. Ele não sou eu. Aqueles braços não podem dar a ela o meu sorriso, o sorriso dela que é meu. Ela não entende. Por que não me ouve? Falo mais alto, tudo está embaçado. Falo cada vez mais alto e ela pede calma. Calma? Eu estou calmo, falando com minha amada. Não sou sua. Ela insiste em ser enganada por esse inimigo.

Ela tenta explicar. Acabou. Não estamos mais juntos. Ela inventa brigas, meses de brigas. Ele inventou isso, ele inventou tudo isso para ela me esquecer. Ele disse que ela não deveria lembrar de mim, que eu fiz mal pra ela. Ele disse que ela pode gostar de mim, mas que eu não sou bom. Ele faz voz macia. Ele diz que compreende. Ele diz que pode esperar por ela. Esperar para que os braços dele tomem o lugar dos meus. Ele já a tomou nos braços. Ela precisa voltar para os meus braços. Não me lembro...

Quando eles se conheceram? Ela estava nos meus braços ou nos deles? Aquele sorriso de cumplicidade era meu, era nos meus braços ou já era dele? Ela me traiu? Quando? Ela me trai só agora nos braços dele? Aquela foto, turva, embaçada. Evanescida. Como se eles já estivessem desde um tempo perdido da memória. Não me lembro. Quem é ele? Quem é ELA? Meu amor, ela é meu amor. Meu amor que me traia?

Não entendo. Quem sou eu? Onde estão meus braços que a abraçavam? Não vejo meus braços em volta dela. Vejo. Eu estou me apagando e ele, os braços dele, antes turvos, tomando contornos fortes.

NÃO! Precisam ser meus braços! Quero tomá-la em meus braços! Acariciar meu amor. Transmitir meu amor. Imagino ela nos braços dele. Ele não abraça como eu. Venha para meus braços, meu amor. Venha. Isso. Não. Não resista. Porque você está nos braços dele? Ele abraça melhor? Ele abraça mais forte? O abraço dele é diferente? Eu sou diferente? Eu me apago enquanto ele faz tudo para brilhar?

Venha para meus braços! São mais fortes que o dele. São mais fortes que o seu. Não resista. Não resista outra vez. Vem. VEM. Ela está nos meus braços agora. Mas está turva. Aperto mais a imagem silenciosa que grita. Ela não está sorrindo. Sim está. Sua boa abre em um sorriso fosco, opaco. Um grito de alegria. Um grito. Por que esse grito? Porque ela grita nos meus braços? Meu abraço precisa ser mais forte? Ela está sufocando, mas meu abraço precisa ser forte para a imagem dela não apagar. Faço mais força, a cerco mais, meus braços estão quentes. Quentes. Molhados.

Não é mais turvo. É vermelho. O amor escorre dos meus braços. Vejo bem agora. O amor dela é só meu. Só meu e não será de mais ninguém. Mas ela não está sorrindo. Onde está o sorriso dela? Sinto o calor escorrer pelos meus braços, corpo, formando uma poça no chão. Uma poça escarlate que terá a forma do meu amor. Agito minha amada. Ela está fria. A poça aumenta. Meu amor está no limite.

O corpo dela tomba inerte na maior expressão do meu amor. Ela está muda. Sozinha. Longe dos meus braços de veias saltadas. Longe dos braços magros do inimigo. O último abraço dela foi só meu. O último sorriso também. Tenho em mim, no rubro que está no chão, em mim e no sol que se põe no fim da tarde.

E onde está o inimigo? Procuro ao redor. Quero esfregar o escarlate da vitória em sua face. Ele não está em parte alguma. Seus braços não estão abraçando mais nada. Ele não passa de uma imagem difusa. Apagada.

Espere. O que é isso em meus braços, ainda quentes de sangue? Que calor é esse? É um abraço? Quente? Mais quente que os meus braços? O inimigo me abraça. Ele está no sangue que está nos meus braços, no sangue dela. Ela está no chão, no amor acerejado. Ela está nos braços dele, que chora amor. Ele cospe amor. Dos olhos, lágrimas de sangue. Da boca, soluços convulsivos espalham as palavras que eu nunca saberia dizer.

Ele está vermelho com ela. Meus braços ficam translúcidos perto do vermelho que brilha dele com ela nos braços. Ele está vermelho, banhado no amor dela. No amor que não está nos meus braços, mas nele por inteiro. Ele não nota minha presença. Está imerso em suas lágrimas vermelhiças, em seu soluço de palavras carmim. Está com ela naquela poça. E não me nota.

Não estou mais ali. Estou invisível. Noturno. A vista não está turva, está clara como a luz que me trespassa. Estou translúcido. Eles estão em uma poça tão funda de amor que não me notam. Ele em breve estará na mesma poça. Ele, em breve, estará junto com ela. Eles merecem estar juntos. O amor dela escorreu de mim para ele. Eu entendo agora. Eu entendo que os dois se merecem.

Eles não me vêem. Eles não notam quando ele tomba, ainda abraçado ao corpo dela. A poça aumenta. O amor é lindo nos dois e vazio em mim. Meu amor escorreu pelo vão dos dedos. Meu amor maior ficou em mim. O amor maior dela, entretanto, escorreu. Eu tenho o último abraço (mas é ele ali, com ela nos braços) eu tenho o último sorriso (mas é na boca dele que esse sorriso se despejou).

Não tenho mais nada. Nem abraço, nem sorriso. Não tenho mais vida. Ele está no mar da  vida carmesim. Eu preciso adentrar. Eu preciso. Ali. Junto com ela e, se ela está nele, junto com ele. Juntar-me ao mar de amor. Me entrego, em um rasgo violento de vermelho, ao amor dos dois.


Mas o que acontece? Minha visão turva por um instante. Volta mais clara, volta plena. Volta em volta do mar. Meu amor não se mistura ao deles. O deles está denso, espesso. O meu, ralo. Ainda escorre rumo a eles, mas não se mistura. Não há mais espaço para mim. Meus olhos embaçam em vermelho. Abraseados, sentem apagar o fogo que tentei colocar no mar. Eu me apago. Meu amor se apaga. Meu amor se apaga vendo, neles, um rúbio amor que nunca irá se apagar.

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